A incrível história de Marcos Molina, que criou uma das maiores empresas globais de alimentos, muito além da pecuária
Marcos Molina, dono do Marfrig, confina bois na sua fazenda Jequitibá, em SP
Todos os fins de semana, o empresário Marcos Molina pega a estrada em direção à fazenda. Sai de São Paulo rumo à cidade de Porto Feliz, pela rodovia Castello Branco. Antes de chegar, no entanto, ele faz um pequeno desvio, faz um caminho um pouco mais longo e evita uma praça de pedágio. Assim, Molina economiza R$ 6. Este mesmo personagem, que controla cada centavo, construiu a mais meteórica história de sucesso do agronegócio brasileiro – e para isso não mediu esforços nem recursos. Movido a aquisições bilionárias, o Marfrig se transformou numa das maiores multinacionais brasileiras, com presença em vários países e receita prevista de R$ 10 bilhões neste ano. No fim de junho, Molina colocou mais uma vez a mão no bolso. Comprou, por R$ 65 milhões, a área de abate de perus da doux Frangosul. Foi a 36a aquisição nos últimos três anos, o que dá uma média de uma por mês. Mas a última foi especial. Carne pouco consumida no Brasil, o peru de Natal sempre foi um símbolo da competição entre Sadia e Perdigão – uma briga que não existirá mais, pois as empresas se fundiram e criaram a Brasil Foods. E, onde muitos empresários enxergariam um monopólio duro de ser batido, Molina vislumbrou uma oportunidade. “A fusão é boa para o Marfrig, pois nenhum supermercado vai querer comprar de um só fornecedor”, aposta ele.


Molina é essencialmente um vendedor, tarefa que ele desempenha desde os 16 anos, quando deixou o açougue do pai, em Mogi-Guaçu, no interior de São Paulo, para se transformar num distribuidor de carnes. E foi batendo de porta em porta que ele começou a entender a psicologia do consumo e a decifrar os desejos dos clientes. Hoje, o Marfrig é uma empresa onipresente. Quem estiver saboreando um bife de chorizo no Puerto madero, em buenos aires, provavelmente estará comendo um corte Marfrig. o mesmo vale para as carnes servidas nas churrascarias fogo de Chão e para os hambúrgueres do Mcdonald’s, assim como para os menus de vários restaurantes na inglaterra, na irlanda e na holanda, onde o Marfrig tem forte presença. “Nossa relação com o Molina começou em 2000, quando ele ainda nem tinha comprado seu primeiro frigorífico”, disse à DINHEIRO RURAL o empresário Arri Coser, dono do Fogo de Chão. “Ele se colocou à disposição para trazer cortes que não existiam no Brasil, viajou o mundo inteiro e ainda hoje nos liga para saber como a equipe dele está nos atendendo.” hoje, Molina entrega 65% das carnes consumidas no Fogo de Chão e, além de fornecedor, passou a ser amigo.
A história do dono do Marfrig é única, pois ele percorreu o caminho inverso ao dos seus concorrentes. Grupos como Friboi e Bertin nasceram no meio rural, na atividade pecuária, e depois se transformaram em grandes frigoríficos. o Marfrig já surgiu na ponta final, no varejo, e de lá veio descendo em direção ao campo. o primeiro frigorífico, o de Bataguassu, em Mato Grosso do Sul, foi arrendado em 2000 e, depois disso, Molina não parou de acelerar. hoje ele emprega 39 mil pessoas e tem 18 plantas de abates de bovinos, dez de abate de frangos, quatro de abate de cordeiros, além de 30 fábricas de produtos industrializados. Mas ele nem se enxerga mais como dono de abatedouros. na assembleia de acionistas realizada em 28 de abril, a razão social deixou de ser Marfrig Frigoríficos e passou a ser Marfrig alimentos. além disso, depois de passar pelo varejo e pela indústria, Molina cruzou a porteira. Sua propriedade em Porto Feliz, a Fazenda jequitibá, é um showroom do Marfrig, onde 6.788 animais das raças angus, brangus, red angus e nelore estão confinados. ela foi comprada de isaac Popoutchi, braço direito de Benjamin Steinbruch na CSN, e não será a única. Especula-se também que Molina estaria arrendando algumas das maiores fazendas de gado de Mato Grosso do Sul, onde passaria a ter um rebanho de mais de 100 mil cabeças.
Com tantos tentáculos em locais tão distantes, Molina transformou seu jato Hawker 800 no escritório. Ele passa mais tempo voando de uma fábrica a outra do que na sede do grupo, em São Paulo. uma das viagens mais recentes, a Cuiabá, em Mato Grosso, também ajuda a entender o estilo de Marcos Molina. ao lado do governador Blairo Maggi, ele anunciou que não comprará mais um quilo de carne de fornecedores com problemas ambientais no bioma amazônico. “Vamos excluir da lista de fornecedores qualquer proprietário que tenha uma única fazenda embargada”, disse Molina, que foi o primeiro a tomar essa decisão. assim, ele deu prova de estar sintonizado com os anseios dos varejistas e dos consumidores. a rede Mcdonald’s informou em nota “ter ficado satisfeita com a decisão do Marfrig”. o presidente do Wal-Mart, hector nuñez, também acompanha de perto os passos do grupo. “a concentração fortalece as empresas brasileiras, mas nossa política de compras sempre visa favorecer o consumidor final”, disse ele à dinheiro rural. isso significa que a Brasil Foods não terá vida fácil no varejo. e o Marfrig, que já possui várias marcas, como Bassi, Pena Branca, Mabella e daGranja, está se preparando para esse novo ambiente de competição. “Vamos ser a segunda maior empresa de alimentos do Brasil”, disse Molina. na verdade, o Marfrig terá a possibilidade até de se aproximar da Brasil Foods se for confirmada sua fusão com o grupo Bertin – este foi o grande rumor ventilado na última Feicorte, a maior feira de gado de corte da américa latina, em São Paulo. assim, Molina teria um pé em todas as proteínas animais, inclusive no leite, pois o Bertin recentemente comprou a Vigor – até o fechamento desta edição, no entanto, o negócio ainda não havia sido confirmado. “Com ou sem a fusão com a Bertin, o Marfrig continuará crescendo no Brasil e no mundo, pois tem uma gestão excepcional”, avalia Roberto Gianetti da Fonseca, presidente da abiec, a associação dos exportadores de carne.
Nesse processo meteórico de expansão, Marcos Molina contou com vários aliados. Um de seus maiores amigos, e também conselheiro, é ninguém menos que Márcio Cypriano, ex-presidente do Bradesco. o BNDES, capitaneado pelo economista luciano Coutinho, foi vital na internacionalização da empresa. em 2008, em troca de uma participação acionária, o BNDES injetou R$ 472 milhões no Marfrig, que ajudaram a bancar a compra das atividades do grupo oSi, fornecedor do Mcdonald’s, em vários países. a empresa foi também uma das primeiras do setor a levantar recursos no mercado de capitais – listado no novo Mercado da Bovespa, o Marfrig se valorizou 45% no primeiro trimestre deste ano. “o Marcos soube aproveitar muito bem o novo ambiente institucional brasileiro para crescer”, disse à DINHEIRO RURAL o economista Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central e um dos membros do conselho de administração do grupo. “A história dele mostra que as fortunas não dependem de heranças, mas de muito trabalho e persistência.”
R$ 10 bilhões será a receita do Marfrig neste ano. Isso se Marcos Molina parar de comprar empresas
Molina é também visto como um exemplo por vários líderes do agronegócio. “O modelo Marfrig é inspirador”, diz o criador José Carlos Bumlai, dono de um rebanho de mais de 100 mil cabeças. “Como tem um pé em vários setores do agronegócio, ele conseguiu construir um seguro natural para sua empresa, feito não no mercado financeiro, mas no próprio setor produtivo”, afirma. Se o boi vai mal, o frango vai bem. Se caem as exportações de frango, crescem as de suínos, e assim por diante. jonas Barcellos, dono da Fazenda Mata Velha, é também um dos grandes fornecedores de bois de corte para o Marfrig. “É uma empresa seríssima”, diz ele, lembrando ainda um aspecto curioso da relação entre pecuaristas e frigoríficos. “Sempre pesamos os nossos bois aqui na fazenda, antes do abate, e nunca houve uma divergência de peso com as balanças deles.” dono do grupo Brasif, que já controlou os free-shops nos aeroportos do Brasil, Barcellos também destaca a rapidez com que Molina toma suas decisões. Certa vez, ele sugeriu ao dono do Marfrig que passasse a vender carnes especiais nos free-shops. em uma semana, Molina já havia criado cortes e embalagens especiais.
Como funciona a empresa
Do campo à mesa: integrado, o Marfrig tem confinamentos e diversas plantas de abate. Sua carne está presente em vários restaurantes, como as redes de churrasco Fogo de Chão e o McDonald’s
O fundador do Marfrig também conta com uma boa retaguarda caseira. Sua esposa, Márcia aparecida dos Santos, é mais do que uma companheira. É também quem cuida de toda a parte financeira do grupo uma área que, por sinal, não tem desapontado os grandes investidores. Bancos de investimento, como Credit Suisse e itaú, têm recomendado a compra de ações do Marfrig. Num relatório distribuído a clientes, a analista Juliana Rozenbaum, do Itaú, ressaltou a velocidade na integração das empresas adquiridas, sem que isso gerasse pressões de custos. “a disciplina é o grande destaque”, disse ela. uma disciplina que só se encontra em pessoas predestinadas que, a caminho da fazenda, tomam um caminho um pouco mais longo para escapar de uma praça de pedágio e, assim, economizar R$ 6.
Com reportagem de Adriana Mattos e Nicholas Vital
fonte: Istoérural
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