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sábado, 16 de setembro de 2017

Receita americana

Crédito: Sara Winter

Ver o que ocorre na pecuária leiteira americana serve a dois propósitos: saber como os pecuaristas produzem a partir de animais de alto desempenho e como eles lidam com um mercado mundial em competitividade acelerada. Hoje, cada vaca leiteira nos Estados Unidos produz a média de 10,1 mil litros de leite por ano, quantidade 23% acima do ano 2000. Para comparação, a média brasileira de é 1,5 mil litros por vaca. A produção do país, que naquela época era de 76 milhões de toneladas de leite, hoje é de 93,5 milhões de toneladas. Os produtores deram esse grande salto na produtivade aumentando o rebanho de 9,2 milhões de vacas ordenhadas, para apenas 9,3 milhões. Mais uma comparação: o Brasil produz 35 milhões de toneladas de leite, com 23 milhões de vacas. Somente as exportações de lácteos, como leite em pó e queijos, injetam na economia americana US$ 15 bilhões por ano. A par dessa realidade, Wijnand Pon, 73 anos, um senhor de comportamento curioso mas discreto, chapéu panamá nas mãos, caminhava com passos firmes em uma manhã do início do verão americano, que vai de junho a setembro. No final de junho, por volta de 10 horas, os termômetros já marcavam 16 graus, temperatura alta para quem costuma conviver com marcas negativas no inverno. Nessa ocasião, Pon estava animado em conhecer os detalhes de como funciona a leiteria Steenblik Dairy, uma fazenda localizada em Pewamo, aldeia do Estado do Michigan, na qual vivem cerca de 500 moradores. Mas, ao contrário do lugarejo, a fazenda é grande. A Steenblik Dairy é uma das maiores da região, com 3,4 mil vacas leiteiras que produzem diariamente 141,7 mil litros de leite, o que dá uma produção anual de 51,8 milhões de litros. A família Steenblik começou a criar a raça holandesa em 1994, ordenhando 60 vacas. Pon estava interessado em conhecer o plano genético da fazenda, saber quais touros são utilizados, como é feita a gestão do negócio e qual o futuro da atividade na propriedade. “Nos próximos 20 anos, grandes mudanças vão ocorrer, principalmente na área de genômica animal”, afirmou ele. “Pre­ci­samos ir ligeiros nas pesquisas e nos processos implantados nas fazendas, para produzir mais leite por vaca e de modo sustentável. E ter como meta que esse desenvolvimento jamais pode parar, cada vaca é uma fábrica de leite.”

John Weller: com 3,4 mil vacas em lactação, a média de produção da fazenda chegou a 40 litros diários por animal, baseada na genética (Crédito:Vera Ondei)

Na manhã da primavera americana, a DINHEIRO RURAL acompanhou Pon e um grupo de 360 produtores e técnicos de 26 países – asiáticos, europeus, americanos e africanos –, convidados por ele, dispostos a rodar pelo Michigan visitando algumas de suas melhores fazendas. Em quatro dias, foram vistas nove propriedades e 19 mil vacas em produção. Pon, que nasceu na Holanda, tem propriedade em Feerwerd, uma aldeia na qual moram cerca de 300 pessoas, localizada a cerca de 200

“É preciso rentabilizar a produção e isso se faz investindo no conjunto. Saber para onde vai a criação é essencial” Albert Els Steenblik, produtor em Pewamo

quilômetros de Amsterdã. Ele é, de fato, um homem do campo. Além da fazenda próxima de onde reside, Pon possui criação de gado leiteiro na Alemanha, na Escócia e na Polônia. No total são 3,2 mil vacas em lactação. Mas Pon não é um produtor qualquer. Ele é um dos cinco homens mais ricos de seu país, com uma fortuna avaliada em US$ 2,2 bilhões. De acordo com a revista americana Forbes, fortuna amealhada como o maior importador de carros das marcas Porsche e Volkswagen na Holanda, além de dono da Accell Group, uma das gigantes do mercado de bicicletas em toda a Europa. Mas ele aprecia, mesmo, ser visto como o controlador da Koepon Holding, onde está o coração de seus negócios no campo. Isso porque a sua atuação no agronegócio não se resume a ordenhar vacas em Feerwerd. A Koepon Holding é dona de um grupo de seis empresas que vão de agricultura de precisão ao desenvolvimento genético de bovinos. Entre elas está a Alta Genetics, de origem canadense, que se tornou a maior empresa privada de inseminação artificial do mundo, com a maior parte dos negócios nos Estados Unidos. Em 2000, época em que detinha 12% das ações da empresa (até então abertas na bolsa de Toronto), Pon investiu US$ 260 milhões para comprar o controle total da companhia que atua em 90 países. E aí começa a sua ligação com o Brasil, que ele conhece desde a década de 1980. A sede da Alta Genetics está em Uberaba (MG). Juntamente com os Estados Unidos, o centro brasileiro é um dos maiores em produção de sêmen do grupo, que possui 14 unidades em seis países. “O Brasil é um país que vai crescer mais rapidamente que o mundo”, afirma ele. “E tem mostrado organização para essa tarefa.” Além do Brasil e Estados Unidos, os centros de genética estão localizados no Canadá, na Argentina, na Holanda e na China.

Ordenha: a maioria das grandes fazendas investe em equipamentos sofisticados que são operados por mão de obra estrangeira, a maior parte proveniente do México (Crédito:Divulgação)

Pon entende de vacas e de negócios. Em suas mãos, a Alta Genetics que vendia pouco mais de quatro milhões de doses de sêmen no ano 2000, comercializou no ano passado cerca de 15,3 milhões de doses coletadas de 1,1 mil touros. A receita foi de E 150 milhões. No mundo, a Alta disputa espaço com outras gigantes do setor de genética animal, como a ABS Global, a Semex, a CRI, a Select Sires, todas com atuação no Brasil. Para ele, e também para o grupo de produtores, além de saber sobre o país, esmiuçar a pecuária leiteira americana é entender como os pecuaristas vêm tratando o seus rebanhos e como as fazendas se organizam, sejam elas gigantes ou médias propriedades. São 42 mil pecuaristas na atividade leiteira, em 23 Estados. Entre os maiores produtores estão os Estados da Califórnia em primeiro lugar, mais Michigan, Idaho, Nova York, Texas e Novo México.

Lida na fazenda: da criação das bezerras em baias individuais, à ordenha em sistemas como o carrossel (à dir.), os produtores americanos de gado leiteiro têm trabalhado melhorar a gestão familiar das propriedades
O produtor Albert Els Steenblik, que possui 2,4 mil vacas em lactação, de um rebanho de 3,5 mil animais, investiu na última década cerca de US$ 20 milhões no negócio. O dinheiro foi gasto em estábulos, em uma sala de ordenha do tipo carrossel para 86 animais, além da compra de genética. A receita anual é de US$ 24 milhões. Steenblik trabalha para elevar a produtividade em 10%, com vacas produzindo 45 litros de leite por dia. “É preciso rentabilizar a produção e isso se faz investindo no conjunto”, afirma o produtor. “Saber para onde vai a criação é essencial.” Na Double Eagle Dairy, localizada em Middleton, a cerca de 30 quilômetros de Pewamo, o produtor John Weller afirma que o grande desafio da atividade leiteira é rentabilizar a propriedade e planejar. A família Weller, com 3,4 mil vacas em lactação, produz leite desde a década de 1950. A atual média por vaca é de 40 litros por dia, volume equivalente a 50,3 milhões de litros por ano. Ele afirma que nos últimos cinco anos, a margem de lucro por litro produzido variou de US$ 0,02 a US$ 0,24, o que significou cerca de US$ 12 milhões no bolso.

Na prateleira: as propriedades leiteiras têm procurado a diferenciação. Entre elas, a Prarie View Dairy avisa no rótulo que o seu leite é uma marca de um criador

“Produzir leite é um bom negócio, mas é importante que nos momentos de alta o produtor não se esqueça de que a atividade se move em ciclos”, diz Weller. “Hoje, embora outros Estados estejam trabalhando em alta, no Michigan nós esperamos para os próximos dois anos um aperto nos negócios”.
INDÚSTRIA Gigantes no processamento de lácteos têm os olhos voltados para esse mercado, mas nem todas estão presentes nos maiores Estados produtores. A suíça Nestlé, por exemplo, que faturou no mundo US$ 24 bilhões, dos quais angariou US$ 11,6 bilhões nos Estados Unidos, não tem unidades de captação de leite no Michigan. Para os produtores é esse o desafio: faltam laticínios. O domínio local é de três empresas que estão no grupo das 100 maiores desse setor americano: a holandesa Meijer, que faturou US$ 474 milhões em 2016; a Michigan Milk Producers Association, com US$ 427,9 milhões; e a Continental Dairy Facilities Coopersville, com US$ 259,3 milhões. As estratégias para driblar esse mercado restrito na entrega de leite passam por alternativas como do produtor John Vander Dussen, da Prairie View Dairy, localizada em Delton. A família de Dussen produz leite na Califórnia desde os anos 1940. Seu projeto no Michigan começou em 2007 e deslanchou. Das 600 vacas iniciais, hoje são 2,4 mil holandesas, com produção anual de 30,6 milhões de litros. Todo o leite é processado e vendido como produto fluído, manteiga, iogurte e até sorvete. Vai para o consumo com marca própria, Prairie Farms, com uma advertência que tem dado resultado. Na caixa de leite está escrito: marca de produtor. Além da própria produção, a marca processa leite de outros produtores, em geral pequenos criadores. No Michigan há 1,8 mil fazendas leiteiras, a maior parte de pequeno porte com média de 217 vacas em lactação.

Em família: Todd Tubergen (à esq.) e seu pai Dennis trabalham de olho no potencial genético dos animais. No caso da Tubergen Dairy, o que importa é buscar pela alta produção (Crédito:Divulgação)

O produtor Kevin Lettinga, da fazenda Walnutdale Farms, que fica no distrito de Wayland, também achou um caminho: a criação de uma cooperativa para o comércio de leite. Lettinga e sua filha Aubrey, administram um rebanho de 1,6 mil holandesas e 500 jerseys em lactação, respectivamente com produção de 24,4 milhões de litros anuais e 5,9 milhões de litros. O faturamento com o leite é de US$ 10 milhões por ano, mas já foi abaixo dessa marca. A cooperativa Great Lakes, criada pelo pecuarista, nasceu há cinco anos para rentabilizar o negócio. Hoje, cinco fazendas da região conseguem US$ 0,05 a mais por litro vendido. “Faz a diferença ter um ponto de venda conjunta”, afirma Lettinga. “A cooperativa ajuda a organizar a produção.” A filha Aubrey, 31 anos, e que está sendo treinada para assumir o negócio criado pelo seu avô Half Lettinga nos anos 1970, afirma que além da parte comercial, organizar a produção significa por foco na capacidade produtiva das vacas. “Saber que tipo de vaca está na ordenha, no dia a dia, é fundamental”, afirma Aubrey. “Nos últimos três anos, nós melhoramos a sanidade do rebanho e continuamos a aumentar a produção.” Molly Sloan, formada em ciência leiteira pela Universidade do Wisconsin, em Madison, e gerente global dos programas de treinamento da Alta Genetics, diz que planejar a genética do rebanho é o que dá um norte para a criação. “O produtor precisa saber qual peso ele vai dar para a produção de leite, para a sanidade do rebanho e para a conformação animal, em uma escala de um a 100”, afirma Sloan. “É com o desenho do tipo de animal mais adequado à sua realidade que o produtor pode ir em busca da melhor genética, não importa o tamanho do rebanho.”

No estábulo: na Walnutdale Farms são criadas duas raças. De jersey (foto ao lado) são 500 vacas e de holandesas são 1,6 mil vacas em produção (Crédito:Divulgação)

GENÉTICA A Tubergen Dairy, localizada no distrito de Ionia, mantém 850 holandesas em lactação, com produção média de 43 litros diários. Administrada pelo pai Dennis Tubergen e pelos filhos Todd e Kurt, que ajudam no manejo, e Amber na administração, a fazenda tem ganhado produtividade. Na agenda do planejamento genético, a escolha dos touros para cobrir as vacas recai em 70% para a produção de leite, 15% para a sanidade e apenas 10% para a conformação animal. Amber tem as contas na ponta do lápis: até seis meses, uma bezerra custa US$ 800 e até o nascimento do primeiro parto, US$ 2,2 mil. Desde 2005, todo o gado é inseminado. “Queremos aumentar a produção, medindo o desempenho”, diz Todd. “A genética custa se ela for mal usada”, afirma Dennis Tubergen.

Gerações: Aubrey Lettinga, 31 anos, vem sendo preparada para herdar a administração da fazenda fundada nos anos 1970, pelo avô Half Lettinga

Nos Estados Unidos, ao contrário do Brasil, em que o produtor compra da central de inseminação a dose de sêmen, o pecuarista leva a prenhez, ou seja, a empresa entrega a vaca com um bezerro a caminho. Hoje, uma prenhez varia entre US$ 60 e US$ 80. “Mas pode até ser mais, depende do que buscamos”, afirma o produtor John Schaendorf, 56 anos, dono da Granja Schaendorf, localizada em Allegan, onde cria 2,5 mil vacas leiteiras. Há cinco anos, o planejamento genético está montado para utilizar touros com aptidão em 70% para a produção e 30% para sanidade. “Uma vaca precisa ser boa no estábulo”, diz o produtor. Sua média diária atual é de 39 litros por animal. “A tecnologia, aliada à mão de obra eficiente, faz da atividade leiteira uma boa experiência”, afirma ele. Desde o ano de 2009, quando surgiram as provas genômicas para avaliar e buscar pelos melhores touros para cobrir a vacada, a cena leiteira americana tem mudado. De acordo com Sloan, a partir desse momento, o trabalho ficou mais cirúrgico. “Os touros avaliados dão confiabilidade de 75% de acerto na escolha da genética, como produzir mais leite, ou um gado mais resistente às doenças, por exemplo”, diz ela. “É como sair da direção de um carro familiar e passar a dirigir uma Ferrari ou um Mercedes.”

Visão: para comercializar melhor o leite, Kevin Lettinga criou uma cooperativa há cinco anos. Hoje, há cinco propriedades no esquema (Crédito:Vera Ondei)

MEXICANOS Os produtores americanos investem em produtividade e qualidade do leite porque planejam no longo prazo. E não são apenas os grandes produtores. A Granja Simon, de Westpahlia, administrada por Larry Simon e seu filho Brent, possui apenas 800 vacas, com média de 41 litros por dia. Na última década eles investiram cerca de US$ 4 milhões para melhorar a qualidade do leite. Não por acaso, no ano passado a granja foi classificada entre as seis melhores nesse quesito pela Associação Nacional de Controle de Mastite, com sede no Texas. “A receita é cuidar do gado e da mão de obra”, diz Simon. “É isso que mantém o rumo da produção.”

“A tecnologia, aliada à mão de obra eficiente, faz da atividade leiteira uma boa experiência” John Schaendorf, de Allegan

Desde 2003, a produção doméstica americana tem aumentado acima do consumo, de olho em novas fronteiras. Hoje, o país exporta 15% do leite que processa, cerca de 14 milhões de toneladas em produtos. Mas, segundo o US Dairy Export Council (Conselho de Exportação de Lacticínios, na tradução do inglês), o país pode chegar a 20% do que produz. Isso porque, para os americanos, a conta é simples no mercado consumidor mundial: nos próximos 15 anos, somente a classe média asiática vai passar de 2,7 bilhões de pessoas para 3,2 bilhões. A diferença de 525 milhões de consumidores é quase duas vezes a população americana. Mas, para a empreitada, eles necessitam da mão de obra e nas fazendas americanas ela é sinônimo de mexicanos.
Na Granja Schaendorf, que possui 35 empregados, 70% são do México e 30% são da Guatemala. Ganham, em média, US$ 10,50 por hora, em jornadas de até dez horas diárias. O mexicano 
Frank Lopez, trabalha há 17 anos na fazenda. Hoje, ele gerencia o estábulo das vacas. “Há trabalho nas fazendas e elas dependem do país vizinho.” Mas Kevin Lettinga diz que na maior parte das fazendas o que falta é mão de obra qualificada. “Treinar funcionários é um gargalo na gestão da fazenda, por causa da rotatividade”, diz ele. Na Granja Simon, Brent diz que a receita é se cercar dos melhores. “Meu pai sempre teve essa medida para gerir a propriedade”, diz ele. Evan Platte, gestor de trabalho na Steenblik Dairy, afirma que o maior desafio é dar oportunidade de crescimento profissional para essa mão de obra. “Nós fazemos reuniões semanais com os ordenhadores, para planificar o trabalho, aparar arestas”, afirma Platte. “Por isso, preferimos pagar melhor a ter uma política de bônus por produção.” De acordo com o gestor, que está há dois anos no atual cargo, um gerente geral pode ganhar até US$ 60 por hora. Tomando por base essa possibilidade, fazer carreira no agronegócio americano não é um mau negócio. Isso, se o governo do presidente eleito Donald Trump não cortar de vez as relações com o país vizinho. Trump já propôs leis para barrar a imigração e construir um muro de cerca de mil quilômetros na fronteira com o México, que pode custar US$ 8 milhões. Nos Estados Unidos vivem cerca de 11 milhões de pessoas ilegais de várias partes do mundo, mas a maioria é mexicana. “Sem eles, a pecuária não funciona”, diz Platte. “Essa é a nossa realidade.” Pon, da Alta Genetics, se esquiva desse tema delicado. “No mundo, os presidentes vêm e vão. Não sou um homem político, o que me interessa são os negócios”, afirma ele. “O leite nos Estados Unidos, e em outros países do mundo, inclusive no Brasil, tem um futuro garantido porque a demanda vai crescer, as fazendas vão se desenvolver e é esse o foco.” Ao falar do Brasil, o executivo pensa um pouco antes de retomar o discurso. “Da primeira vez que estive no Brasil para hoje, a realidade também é outra”, afirma. “É um País que acredito, principalmente no poder de organização das pessoas e dos times de trabalho. Será grande também no gado de leite.” Aliás, o executivo que raramente concede uma entrevista, na Holanda é tido como um personagem raro na mídia local. Por isso, nas poucas vezes em que fala, é bom não desviar de seu assunto preferido: leite, pasto, touros e genética, como ele gosta.

fonte: Istoé Rural

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Como escolher o touro Girolando

– Revista Balde Branco

A raça se destaca pela diversidade de manejo para se trabalhar e pelas opções de cruzamentos. No entanto, os bons resultados dependem do conhecimento que se tem dos reprodutores

Por Christian Milani Resende, gerente de produto de leite nacional Semex
Em um mercado onde o acesso à informação está cada vez mais fácil e os custos dos insumos vêm achatando a receita dos produtores de leite, é inadmissível que o criador dos tempos atuais use sua fazenda como laboratório de cruzamentos entre raças. Por isso, convém discutir as possibilidades do uso da genética Girolando e como é possível alcançar resultados adequados para cada objetivo.
A raça Girolando está devidamente consolidada para a produção de leite nos trópicos. A demonstração de crescimento que ocorre anualmente em solo brasileiro é também despertada em outros países de clima tropical, como Colômbia, Costa Rica, Panamá e Venezuela. Nestes países, a aceitação e utilização de sêmen de touros Girolando já é uma realidade. No entanto, em algumas regiões do Brasil, ainda se encontra criadores desconfiados ou pouco informados sobre sua utilização.
É importante ressaltar que o sucesso da raça Girolando se deve aos criadores que vêm fazendo o serviço de casa bem feito por meio dos acasalamentos entre as melhores matrizes Gir Leiteiro e os melhores touros Holandeses do mercado mundial. Cabe ressaltar que grandes criatórios de Holandês também têm despertado para a produção do Girolando, utilizando suas melhores matrizes com touros Gir Leiteiro selecionados.
Hoje, o Brasil é referência no Gir Leiteiro. O maior exemplo disso está no interesse do mercado indiano por produtos brasileiros, mercado aquele que é berço da raça. Portanto, vamos enfatizar ao longo do texto o sucesso do Girolando e a oportunidade de crescimento da raça, passando pela melhor escolha dos indivíduos para sua formação.
Nos acasalamentos é muito relevante a utilização de animais de melhor morfologia. Este critério de seleção consequentemente nos trará animais de grau meio-sangue mais valorizados, principalmente quando a qualidade de úbere é considerada como uma das principais características. Mas, além dela, é importante analisar também bons aprumos, aliados à boa estrutura corporal e boa garupa.
Para a formação de um Girolando, a escolha dos touros Holandeses é de extrema importância, priorizando como critério touros que tenham provas com índices superiores a 2 ou 3 desvios padrão nas características funcionais. Tal detalhe vai refletir diretamente no maior progresso genético da progênie. Veja um exemplo no quadro 1.

Além das características funcionais, deve-se estar atento a touros que tenham também índices positivos em Vida Produtiva, Contagem de Células Somáticas, Fertilidade das Filhas e Conversão Alimentar, os quais ajudarão na formação de progênies mais sadias e consequentemente de maior longevidade e menor custo de manutenção.


quadro1
Indicadores para formação do rebanho – A escolha dos touros Holandeses se deve aos índices positivos de produção, como PTA leite, gordura, proteína e seus desvios percentuais também positivos, pois eles agregam na formação da melhor progênie. Portanto, com a somatória de todas essas características se tem certeza de que estamos no caminho certo para a formação dos melhores animais da raça Girolando.
A ABCCG-Associação Brasileira de Criadores Gado Girolando, juntamente com a Embrapa Gado de Leite, tem desenvolvido um trabalho para consolidar o teste de progênie, mas, enquanto o Sumário de Touros Provados da raça não trouxer informações lineares dos touros provados e os touros jovens não puderem contar com a divulgação das informações genômicas, a opção mais segura de utilização dos touros Girolando 5/8 e 3/4 deve se basear na escolha dos touros Holandeses que compõem o seu pedigree.
A tabela 2 é oficial da ABCGG e sua utilização, deve ser seguida não só como o intuito de registro, mas principalmente na orientação dos acasalamentos. Em matrizes de grau sanguíneo 1/4, ½ e 3/4, é muito comum a utilização de Holandês, porém é preciso destacar os conceitos aqui citados quanto à escolha dos melhores índices do touro Holandês em suas provas.
E como critério na escolha de touros Girolando 5/8 e 3/4, o recomendável é selecionar indivíduos que trazem em seu pedigree touros Holandeses de melhor índice em suas provas. Então, com base na escolha das melhores opções de Gi¬rolando, as indicações de sua utilização seriam as seguintes:

tabela1
• Touros 3/4 x nas matrizes1/2 = progênies 5/8
• Touros 3/4 x nas matrizes 3/4 = progênies 3/4 Bimestiços
• Touros 5/8 x nas matrizes 5/8 = progênies PS (puro sintético)
• Touros 5/8 x nas matrizes 7/8 = progênies 3/4
Estes dois acasalamentos são os mais comuns no mercado para utilização dos touros Girolando 3/4 e 5/8, mas na tabela 1 podemos ver outras variedades de opções de acasalamentos com touros 3/4 e 5/8.

fonte: baldebranco

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A super fazenda

A super fazenda

Com muito investimento, inovação e aposta na produtividade, três empresários consagrados no mundo dos negócios, transformaram um latifúndio improdutivo, em Goiás, num mega empreendimento lucrativo

A fazenda Nova Piratininga é um mundaréu de terras concentradas no noroeste de Goiás, no município de São Miguel do Araguaia, onde o Estado faz divisa com o Tocantins e com o Mato Grosso. São 135 mil hectares, área equivalente a ocupadas por metrópoles como o Rio de Janeiro ou Nova York, registrados em uma única matrícula, no cartório de imóveis local, coisa rara no País. Em geral, grandes fazendas são o resultado da compra e concentração de várias propriedades. No mês passado, a DINHEIRO RURAL esteve durante dois dias na Nova Piratininga, localizada às margens dos rios Araguaia, Javés e Verde, a 480 quilômetros da capital Goiânia. Foi a primeira vez que uma equipe de reportagem entrou na propriedade, depois que trocou de dono, em dezembro de 2010.
Até então, a propriedade pertencia ao empresário Wagner Canhedo, que entrou para os anais do mundo dos negócios por ter levado à falência a Vasp, uma das principais companhias da aviação comercial brasileira.  Seu lugar foi ocupado por três empresários goianos, detentores de partes iguais no negócio. Um deles, João Alves de Queiroz Filho, mais conhecido como Júnior, é o controlador do grupo Hypermarcas, colosso que no ano passado faturou R$ 4,6 bilhões com linhas de produtos farmacêuticos, de higiene pessoal e de beleza. O outro sócio é Marcelo Limírio Gonçalves Filho, ex-dono do laboratório de medicamentos genéricos Neo Química, absorvido pelo Hypermarcas, em 2009. Fecha o grupo a família de Igor Nogueira Alves de Melo, membro do Conselho de Administração da farmacêutica Teuto, fundada por seu pai Walterci de Melo e hoje controlado pela americana Pfizer. Alves de Melo foi escolhido pelos parceiros para dirigir a fazenda Nova Piratininga, na qual está envolvido praticamente em tempo integral. “Pegamos uma fazenda falida e hoje não há um único metro quadrado que não seja produtivo”, diz Alves de Melo. A fazenda está registrada como grupo MJW, letras iniciais dos nomes de seus compradores (no caso, o W refere-se ao pai de Alves de Melo, Walterci, falecido no ano passado.) 

Fêmeas diferenciadas: a base de 43 mil matrizes vem sendo melhorada com o uso intenso de biotecnologias
Remodelada, a Nova Piratininga pode ser colocada no rol das propriedades que servem de modelo para uma pecuária que produz gado bovino de alta qualidade e em larga escala. Da área total, 95 mil hectares são compostos de pastos, que alimentam um rebanho de 105 mil nelores puros ou cruzados com angus, que vem sendo submetido a um processo acelerado de seleção e melhoramento genético para dobrar de tamanho nos próximos cinco anos. O trabalho, mesmo feito a porteiras fechadas, tem chamado a atenção do mercado, principalmente de fundos de investimentos interessados em comprar a fazenda. “Já recebemos várias ofertas, mas nossa resposta é sempre não, porque, como empresários não temos perfil especulador”, diz Alves de Melo. “A Nova Piratininga, definitivamente, não está à venda. Segundo ele, o horizonte da trinca de controladores é de longo prazo, com a pretensão de produzir o melhor gado do País, com sustentabilidade. “A fazenda tem um enorme potencial para superar desafios de toda ordem.” Os sócios, que se reúnem a cada dois meses para discutir os rumos do empreendimento, acreditam que vão rentabilizar o negócio nos próximos anos, assim como fazem com seus investimentos urbanos. No ano passado, a Nova Piratininga já pagava suas próprias contas, ao fechar o exercício com uma receita de R$ 43 milhões obtida com a venda de gado. Mas o negócio vai além desse valor. Ao arrematar a propriedade, o grupo sabia que estava realizando uma grande tacada, em função da valorização da terra, principalmente a partir do momento em que ela começasse a se mostrar eficiente. A fazenda foi comprada por R$ 310 milhões, em parcelas – a última delas, no valor de R$ 50 milhões, será quitada nos próximos meses. Hoje, essa quantia pode ser considerada uma verdadeira pechincha: cinco anos depois da aquisição, o valor de mercado da fazenda decuplicou e é estimado em nada menos de R$ 3 bilhões. Não à toa, na época da compra, o trio de empresários goianos teve de disputar a fazenda de Canhedo com a família Batista, da JBS, e com o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity.

Paulo leonel:  criador diz que a parceria com  a Nova Piratininga tem chamado  a atenção de pecuaristas de todo o País
Ao tomarem posse da propriedade, os sócios estabeleceram um plano de governança com várias frentes de trabalho e algumas prioridades: era preciso olhar para o gado, para a terra, para a imensa infraestrutura e para os funcionários. “Quando entrei na fazenda pela primeira vez deu medo, mas, ao mesmo tempo, também senti uma imensa vontade de trabalhar nela”, diz Alves de Melo. “Estava tudo muito fora do que eu entendo por pecuária.” É preciso considerar que o diretor da Nova Piratininga, aos 35 anos de idade, não é exatamente um vaqueiro de primeira viagem. Ele começou a trabalhar aos 13 anos, dividindo o tempo entre a Teuto e uma fazenda que a família possuía antes de entrar no projeto Nova Piratininga. Alves de Melo, formado em administração de empresas, com especializações na universidade da Flórida, nos Estados Unidos, vem usando todo o seu conhecimento e ainda buscando ajuda para não errar.

Adir Leonel: com 50 anos de experiência como criador de nelore, suas orientações vêm mudando o padrão do gado  da fazenda
TERRA ARRASADA  A gestão do rebanho foi a primeira e mais urgente tarefa a ser realizada. “Nós não sabíamos nem quantos animais havia nos pastos”, afirma Alves de Melo. A contagem do gado mostrou um cenário de terra arrasada. O rebanho encontrado era de cerca de 90 mil animais, dos quais 60 mil eram fêmeas em idade reprodutiva. No entanto, apenas 18 mil haviam parido e 16 mil bezerros foram desmamados, em 2012. Isso significa que, naquele momento, a taxa de natalidade era de 30% e a de desmame, de 26,5%, quando o índice considerado aceitável em uma fazenda de bom nível técnico é de pelo menos 70%. No Brasil, a taxa média de desmame é de cerca de 55%, praticamente o dobro da que era obtida pela fazenda. Na pecuária, essas duas mensurações são reconhecidas como os principais indicadores da eficiência reprodutiva em bovinos de corte. E a verdade, é que eles não estavam nada bons. “O manejo era muito ruim”, diz Melo. “Havia gado na fazenda que nunca tinha sido levado para o curral, que nunca tinha sido visto por um peão.” Em outras palavras, para o antigo dono, gado rústico era sinônimo de sobrevivente.
Além da contagem dos animais e da separação de lotes por categorias, entre elas as de vacas, novilhas e garrotes, a Nova Piratininga fez uma parceria com os criadores Adir do Carmo Leonel, e seu filho Paulo, que administra a fazenda Barreiro Grande, em Nova Crixás, município vizinho a São Miguel do Araguaia. Leonel, que há 50 anos cria nelore, apartou as melhores fêmeas do rebanho para um projeto de uso de sêmen de touros de sua criação. Iniciado em 2012, o projeto tem como meta 100 mil nascimentos por ano, através da técnica de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF).  “Hoje somos alvo de muita curiosidade de pecuaristas de todo o País”, diz Paulo Leonel. Só para ter uma ideia, entre cinco mil e dez mil animais nascidos por intermédios dessa biotecnologia já são considerados projetos de porte.
É desse grupo de fêmeas inseminadas que começa a surgir a base das matrizes que vão produzir animais destinados ao abate. “Nosso objetivo é criar na Nova Piratininga um gado que eleve a qualidade genética da base do rebanho”, diz Adir Leonel.  “Com ela, vai ser possível produzir animais padronizados em tamanho, peso e qualidade da carcaça.” Leonel é reconhecido por seus pares como um dos maiores conhecedores de genética nelore. Inclusive, segundo Alves de Melo, entre os funcionários da fazenda, os animais que vão nascendo dessa parceria são chamados de “gado do Adir, numa referência ao vizinho. “A gente realmente tira o chapéu para o trabalho desse criador especialista, porque de fato é um gado diferente e muito superior ao que tínhamos antes.” A compra de sêmen de reprodutores de Leonel, para a IATF, iniciada na safra 2011/2012, é o maior negócio já realizado diretamente entre duas fazendas, no País. Geralmente, esse tipo de comércio passa pelas Centrais de Inseminação.
Na safra 2014/2015, do total de 45 mil fêmeas apartadas para reprodução – as demais foram abatidas – 43,4 mil entraram no programa de IATF. Desse total, 15 mil fazem parte do projeto Adir e as demais foram inseminadas com sêmen de angus importado pela CRI Genética, empresa americana de genética animal. “A ideia com o cruzamento é fazer com a melhor base nelore, animais destinados a certos nichos de mercado, como as marcas de carne”, diz Alves de Melo. “Por isso, usamos o angus na inseminação.” A taxa de prenhes nesta estação de cria foi de 45% com a IATF, bem superior ao primeiro ano de uso da técnica, quando foi utilizada em apenas sete mil fêmeas e 35% emprenharam. Nesse projeto, as fêmeas que não pegam cria são cobertas por touros nelore. O rebanho de reprodutores é de 1,6 mil animais, usados na proporção de um para cada 20 vacas. A meta é chegar a uma taxa final de prenhes de 70%, mas o zootecnista Frederico de Faria Jardim, responsável pelos negócios da CRI em Goiás, Tocantins e Pará, acredita que possa passar dos 80%, índice que as fazendas altamente tecnologicamente avançadas, conseguem alcançar. “Vamos perseguir essa meta, porque criação, com baixa produtividade, é um mau negócio”, diz Jardim.
Para William Koury Filho, doutor em produção animal e dono da consultoria BrasilcomZ, de Jaboticabal (SP), que monitora cerca de 25 rebanhos de seleção, na cadeia produtiva da pecuária o setor de cria sempre foi um gargalo, porque não se dá a ela a devida importância. Segundo ele, o Brasil poderia produzir mais bezerros, com um número menor de fêmeas. Em outras palavras, com mais produtividade.  São 44 milhões de animais destinados aos frigoríficos, menos de um quinto de um rebanho de 210 milhões de reses, o que representa uma taxa de abate de cerca de 21%. Nos Estados Unidos, por exemplo, são cerca de 88 milhões de bovinos, para um abate de 38 milhões de animais, ou seja, uma taxa de  43%,  o dobro da brasileira. “Não há nada mais impactante na atividade pecuária que a fertilidade do rebanho”, diz Koury Filho. “E para quem faz o ciclo completo, do nascimento à entrega do boi no frigorífico, ser eficiente nesse setor é fundamental para ter lucro no negócio.”
MARCA DE CARNE  Atualmente, a fazenda Nova Piratininga tem na sua prateleira vários produtos, de bezerros, a animais jovens e vacas de descarte. Mas, no futuro, ela quer fazer o ciclo completo. “Pensamos também na construção de uma marca de carne”, diz Alves de Melo. “Chegar lá é uma questão de tempo.” Em 2014, a fazenda vendeu 39,7 mil animais prontos para o abate. Toda a produção de machos desmamados, que totalizou 17 mil bezerros nelore e cruzados, foram vendidos para o produtor Alexandre Negrão, ex-dono do laboratório Medley, para variar.

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A nova roda virtuosa: o manejo é acompanhado por técnicos agrícolas que coletam os dados no campo (1). O serviço vai dos currais ao confinamento, estrutura para dez mil animais, a maior parte bezerros cruzados de nelore com angus (2), que são alimenta dos com ração e silagem de capim (3). Na foto 4 estão os gerentes Selho Souza e José Cláudio da Silva, ao lado de um bebedouro nas áreas de varjão controlado. Nos pastos, os retiros virtuais (5) são para descanso. Cercas (6) e estradas (7) foram reformadas
Negrão possui a Conforto, uma das maiores fazendas independentes de confinamento do País (não vinculadas a frigoríficos), com cerca de 80 mil animais no sistema. Neste ano, a Nova Piratininga vai produzir para a Conforto 20 mil bezerros. No mês passado, os nelores eram negociados a R$ 1.370 e os cruzados por R$ 1.521, valores de mercado acrescidos de bônus de até 50% sobre o preço da arroba. As fêmeas cruzadas de angus, por sua vez, são recriadas por Alves de Melo em confinamento até a fase de novilha e vendidas ao empresário Valdomiro Polisselli Júnior, dono da marca de carnes VPJ. “Conseguimos preço de bois por elas e bonificações de até 11%”, diz Alves de Melo. Os demais animais, fêmeas nelore descartadas do projeto Adir, mais as vacas velhas e os touros improdutivos, passam rapidamente pelo confinamento e depois são vendidos para abate, à JBS.
Nos planos de Melo está justamente o aumento da capacidade estática do confinamento para 30 mil animais, para sair desse modelo. “Com mais estrutura, o número de animais confinados poderia até triplicar.” Hoje, a capacidade é para dez mil animais, e o sistema tem a função principal de apenas padronizar os bezerros e recriar as novilhas cruzadas até alcançarem 20 arrobas, aos 20 meses, antes de irem à venda. “Seria um bom negócio se conseguíssemos confinar todos os animais até o abate, mas ainda não temos pernas para isso”, afirma Alves de Melo.
Para sustentar o projeto de crescimento de uma pecuária baseada na criação no pasto e na terminação em confinamento, o segundo problema atacado pela Nova Piratininga foi o estoque de alimento para o gado. Dos 135 mil hectares da área total, havia apenas 77 mil hectares de pastagens em condições mínimas de uso. Hoje, são 95 mil hectares, dos quais cerca de 50 mil já foram reformados. “Em um único ano chegamos reformar 20 mil hectares, mas é loucura. Hoje, mantemos a média de seis mil por ano”, diz Alves de Melo. Da área total, a fazenda possui 94 mil hectares em área de várzea, na qual foram construídos imensos canais em sistema de comportas para escoamento do excesso de água. “É um varjão controlado, o único do País, que nos permite ter pasto verde praticamente o ano todo.” Na área alta, que ocupa 41 mil hectares, há produção de silagem. Além disso, desde o ano passado 780 hectares de soja estão sendo cultivados por safra, para melhorar a estrutura do solo e implantar uma área de pastos irrigados destinados à produção de silagem.
Também foram construídos 1,4 mil quilômetros de cercas para dividir melhor esses pastos. Até 2010, havia áreas de até três mil hectares, com 480 hectares de matas sem cercas, onde cinco mil vacas disputavam espaço com animais silvestres e selvagens, entre eles as onças. Alves de Melo diz que, felizmente, a infraestrutura de almoxarifado, oficina mecânica, laboratórios, escritórios, fábrica de ração, oficina, borracharia, em um conjunto de galpões, um deles, gigantesco, com 20 mil metros2 de área, era imensamente superior à montada para os animais.
“Nós não teríamos recursos para construir metade do que a fazenda tem hoje, caso tivéssemos comprado uma área para começar do zero”, diz Alves de Melo. Não se trata de exagero. A Nova Piratininga abriga, inclusive, um aeroporto com pista de 1,7 mil metros de extensão (240 a menos que Congonhas, em São Paulo), capaz de receber até jatos de médio porte. As estradas internas, cascalhadas e levantadas do leito original, somam 972 quilômetros, equivalente à distância entre as cidades de Goiânia e São Paulo, nas quais há 300 pontes e três viadutos de concreto, somente vistos em rodovias de pista dupla.
O valor dessa infraestrutura, que passou por reforma e ampliação, é estimado por R$ 1 bilhão, um terço da avaliação total da propriedade, de acordo com Alves de Melo. Há, ainda, dez reservatórios de água, para um projeto de 15, com capacidade de armazenar 10,6 bilhões de litros apenas para o gado. A rede de distribuição para 408 bebedouros tem cerca de 400 quilômetros de encanamentos, que deverão ser ampliados para 570 quilômetros. “Vamos dividir ainda mais a área de pasto, já construímos 250 casas de cocho para sal e proteinados, mas o projeto é chegar a mil”, afirma Alves de Melo. “Só assim vai ser possível dobrar o rebanho.” Juntamente com essa expansão, também vem sendo construído 20 locais de descanso para os cerca de 100 vaqueiros, chamados de retiros virtuais.
AS PESSOAS  Os investimentos em infraestrutura também passaram fortemente pela área social. Casas, restaurantes coletivos, escola, clube com quadra de esporte, campo de futebol e piscina foram melhorados. Atualmente, vivem na fazenda 600 pessoas que desfrutam de moradia, salão social e até duas igrejas. Desse total, 300 são funcionários, mas, contando o quadro de terceirizados, formado por peões que trabalham, por exemplo, no manejo da inseminação, são 400 trabalhadores. “Quando assumimos a fazenda havia apenas 70 empregados e, por isso estava tudo largado”, diz Alves de Melo. “Sem mão de obra qualificada não há como ir em frente.”
Entre os contratados está o atual gerente da fazenda, José Cláudio da Silva, com mais de 20 anos no setor. “Quando me chamaram não pensei uma única vez”, diz Silva. “Essa é uma fazenda de uma porteira só, a de entrada.” Da equipe antiga, Selho José Ramos de Souza, contratado há 15 anos como peão, ainda na época de Canhedo era capataz até dois anos atrás. Hoje ele é um dos três gerentes de pecuária e braço direito de Silva. “Agora, sinto que tenho espaço para crescer na profissão, porque antes trabalhava olhando para o chão, enquanto hoje olho para as pessoas de frente.”
Da equipe de novos funcionários, os controladores do rebanho são exemplos da demanda por novas funções. Há dois anos, em busca de mão de obra, Alves de Melo foi conhecer o trabalho da Fundação Bradesco, no município de Formoso do Araguaia (GO), e fechou uma parceria com a instituição de ensino. O grupo é formado por 12 jovens técnicos agrícolas, que munidos de notebook, rádio e sensores de rastreamento, controlam todo o fluxo de gado dentro da fazenda. Nenhum manejo acontece sem que algum deles esteja presente.
Na Nova Piratininga, os cuidados com os empregados são estendidos às novas gerações. Nos últimos quatro anos letivos, a escola da fazenda ganhou o título de melhor instituição de ensino do município, para alunos até o sexto ano.  Aparelhada de computadores, material de audiovisual conectado à internet, ela poderia servir de modelo para uma boa parte das escolas do País. Aliás, a internet é aberta para toda a fazenda. 
A professora Vita Maria Saraiva, por exemplo, tem 25 anos de magistério e é pós-graduada em pedagogia. Sua filha, Lara, que também é professora, seguiu os passos da mãe e foi além. Ela cursou magistério, letras, pedagogia e é pós-graduada em língua portuguesa. “Aqui não parece uma fazenda, somos uma comunidade com seus problemas e acertos”, diz Lara. “Quando vejo uma criança que não gostava de estudar, pedindo tarefa extra, sei que estou no lugar certo.” Há três anos, elas criaram um projeto de incentivo à leitura, com distribuição de bicicletas como prêmios para os mais aplicados. No ano passado, Jenifer, de nove anos, e Artur, de oito anos, filhos de mecânicos, se destacaram. A menina leu 50 livros infantis, o menino, 46. “Mas neste ano vou ler mais”, afirma Artur.
Orgulhoso, Alves de Melo, que se acostumou a ser abordado sem cerimônia pelos funcionários, sempre que percorre a fazenda, diz que o que vale na Nova Piratininga o conjunto da obra. “Não adianta ter máquinas, gado e terra, pois sem as pessoas certas nada tem valor como unidade produtiva”, afirma. “Quando vejo a garotada, sei que a fazenda também é parte da vida deles, agora, mas pode continuar a ser também no futuro.”
fonte: Istoé Rural

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Vale do Paraíba se destaca na produção leiteira

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Segundo levantamento da Cati-Coordenadoria de Assistência Técnica Integral, as propriedades da região do Vale do Paraíba geraram, em 2016, mais de 219 milhões de litros de leite. Só na área de Guaratinguetá, que compreende 18 municípios, a produção superou os 129,7 milhões de litros, colocando a micro região como a maior bacia leiteira, na comparação com as 40 regionais agrícolas do Estado. Pindamonhangaba, que compreende 21 cidades, ocupa a terceira colocação do ranking, com 89,4 milhões de litros.
“Entre os fatores que contribuem para esse resultado, estão tradição, muitas décadas de experiência e conhecimento técnico da atividade, com a importante contribuição do cooperativismo e da sinergia entre entidades representativas do setor, aliadas à constante orientação de assistência técnica e extensão rural”, disse Jovino Ferreira Neto, diretor técnico da Cati de Guaratinguetá.
Como desafio para os próximos anos, o representante do órgão estadual destaca a necessidade de mais investimentos em capacitações. “Estamos apostando na execução de um programa regional que, contando com a sinergia de entidades dos setores público e privado, vai elevar a produtividade do rebanho, transformando a Região num polo de excelência em qualidade do leite.”

sábado, 12 de agosto de 2017

Na rota da produtividade

Crédito: Eduardo Monteiro

"Invisto sempre nos ganhos de rendimento da lavoura e não sou de perder uma boa oportunidade de negócio”Argino Bedin,produtor de Sorriso (MT) (Crédito: Eduardo Monteiro)

A saga de um repórter que acompanhou parte do Rally da Safra, o maior projeto brasileiro de monitoramento de lavouras, na região mais produtiva de Mato Grosso

Não foi uma tarefa fácil sair da fria capital paulista, na manhã do dia 8 de maio, e desembarcar na tórrida cidade de Sinop, município do norte do Estado de Mato Grosso. O trajeto de dois mil quilômetros em apenas um vôo, caso existisse uma linha área direta, duraria pouco mais de três horas. No entanto, o percurso real foi de 2,6 mil quilômetros em três vôos que duraram seis horas. A peregrinação aérea passou por Curitiba e Londrina (PR), mais a capital Cuiabá, antes do destino final. Naquela tarde, os termômetros do aeroporto de Sinop marcavam 36 graus. Mas chegar à cidade nem se comparava com a que estava por vir: uma expedição de cinco dias pelo mar de lavouras de milho em que o Mato Grosso vem se transformando depois da colheita da soja na primeira safra. É que o Estado se tornou o maior produtor do cereal no País, cultivando quase todo o milho na segunda safra. Na primeira, neste ciclo, foram somente 250 mil hectares. Mas na segunda safra, entre janeiro e meados de março, os agricultores plantaram 7,4 milhões de hectares. E vão colher, até julho, 24,7 milhões de toneladas, volume 64% superior ao ciclo 2015/2016, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Saber o que pensam o produtores, como eles vêm trabalhando a terra e os desafios da aprendizagem na gestão do negócio do milho é fundamental para o desenvolvimento das safras que virão pela frente. Não por acaso, há uma década o Mato Grosso produzia 3,3 milhões de toneladas na segunda safra. “Nesta safra, tanto o clima como o profissionalismo do produtor ajudaram muito a chegar nesse resultado”, diz a agrônoma Heloísa Melo, da consultoria catarinense Agroconsult. “A comercialização está sendo um problema porque o produtor deixou de fazer as vendas antecipadas em alguns casos.”

Venda antecipada: Bernardo Chiarelotto (à dir.) e seu filho Diogo, da fazenda São Francisco, em Cláudia só travaram 10% da produção (Crédito:Eduardo Monteiro)

Melo fala com propriedade. Ela é a responsável pela coordenação de um grupo de 16 pessoas para monitorar o maior polo produtor de Mato Grosso, a região do Médio-Norte para a expedição Rally da Safra. O rally é o maior projeto do País de monitoramento de lavouras, promovido pela Agroconsult. A partir de Sinop, engenheiros agrônomos, técnicos, estudantes de agronomia, mais a reportagem da revista DINHEIRO RURAL, embarcaram em uma etapa do projeto, a bordo de quatro picapes com tração nas quatro rodas. Estavam por vir estradas com trechos muitas vezes esburacados, e a travessia por pontes nada confiáveis. O caminho percorrido foi de cerca de 6,3 mil quilômetros pela BR 163, passando pelos municípios de Cláudia, Vera, Nova Ubiratã, Sorriso, Lucas do Rio Verde e Nova Mutum, até a chegada a Cuiabá. Neste ano, o Rally da Safra, que acontece desde 2003, percorreu 95 mil quilômetros por lavouras de milho de 11 Estados, com o final da expedição no início deste mês. “Nessa região de Mato Grosso, os dados coletados no percurso ainda precisam ser analisados com profundidade, mas já foi possível uma constatação: as lavouras expressaram uma produtividade muito próxima ao seu potencial”, diz Melo. Coletando dados, como o tamanho das espigas, o espaço entre as plantas e a quantidade de pés de milho por metro, ali mesmo já era possível ver que o Médio-Norte de fato deixava para trás as marcas de uma temporada muito ruim. A safra passada, a 2015/2016, foi uma das piores da história do milho safrinha, por causa da seca que assolou Mato Grosso. A queda chegou a 25,8% e os produtores colheram somente 15 milhões de toneladas. Para a Conab, a região do Médio-Norte deve apresentar uma produtividade média de 5,7 mil quilos por hectare, ante 3,9 mil na safra passada.
Nessa etapa, o Rally colheu cerca de 300 amostras de dados. Uma delas foi na fazenda Santa Anastácia, de 14 mil hectares no município de Sorriso. Ela pertence ao gaúcho Argino Bedin, que cultiva milho e soja há 35 anos na região. Bedin conhece bem a fórmula para não perder dinheiro. Seu segredo? “Invisto sempre nos ganhos de rendimento da lavoura e não sou de perder uma boa oportunidade de negócio”, diz Bedin. É por isso que ele mantém uma das fazendas mais estruturadas da região, com unidades de armazenamento com capacidade para 84 milhões de toneladas e um pátio de máquinas com 27 colhedeiras, plantadeiras de até 60 linhas e seis tratores, alguns gigantes de esteira para evitar a compactação do solo. Em meados de outubro do ano passado, Bedin fechou a venda antecipada de 69,2% de sua produção por R$ 18 a saca. “Nessa época, o milho estava num pico de bons preços e por isso não perdi a oportunidade”, diz ele. De fala mansa, focado, Bedin sabe que com o milho, o bom negócio é administrar os ciclos. Isso porque nos últimos anos, definitivamente o cereal brasileiro entrou na pauta de exportação e lá fora a produção americana tem peso. Os americanos, os maiores produtores do mundo, vão colher nesta safra 366,54 milhões de toneladas, 6,5% acima da anterior. “Tudo depende dos americanos”, diz Bedin. “Se eles vão bem, nós não ficamos tão bem, e por isso os preços estão mais baixos.” De acordo com o produtor, o valor da saca de 60 quilos de milho, em meados de outubro do ano passado, que já não era tão alto, estava em torno de R$ 18. Hoje, o preço é de cerca de R$ 15. “Na safra passada tivemos uma colheita ruim, com preços bons. Nesta safra, os preços que estão ruins”, diz o produtor. Mas não para ele. Pela venda antecipada, o produtor vai faturar R$ 16,2 milhões somente com o cereal. Ele plantou dez mil hectares, praticamente o total de sua área, e deve fechar a colheita no final deste mês com uma produtividade de 130 sacas de 60 quilos de milho por hectare, 30% a mais que na safra 2015/2016.

Divulgação

Bedin faz parte de um grupo de produtores que estão atentos ao mercado e não são de especular. Esse grupo hoje comercializa de forma antecipada metade da produção do milho de Mato Grosso. Segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), até o dia 19 de maio, 13,1 milhões de toneladas, volume equivalente a 46,7% da produção estavam travadas com vendas futuras. Mas, para os analistas de mercado, na comparação com a safra passada esse índice foi baixo. Nessa mesma época, em 2016 já se registrava 15,8 milhões de toneladas da produção comercializada, 82,7% da safra. Para André Pessôa, sócio-diretor da Agroconsult e coordenador geral do Rally da Safra, é necessário que o produtor evolua mais nessa prática porque é a forma do produtor garantir a cobertura de seus custos. “Essa mudança está ocorrendo muito lentamente”, diz Pessoa. “Falta ainda uma boa educação financeira para que o produtor passe a usar mais ferramentas de venda antecipada, via contratos a termo com as tradings ou indústrias. Também com contratos futuros ou derivativos na B3 ou, ainda, usar ambos.”

Em movimento: foram cerca de 6,5 mil quilômetros rodados pela equipe do Rally da Safra em Mato Grosso. O constante trânsito de caminhões de grãos (acima.) anunciam o recorde da produção (Crédito:Divulgação)
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Pela janela da picape, o que se vê é um Mato Grosso exuberante, com verde até onde a vista alcança. Áreas de mata, pasto e lavoura se misturam na velocidade que a estrada permite. Mas nessa época, nada se compara à imensidão das lavouras de milho, cheias de espigas granadas, no máximo de sua carga genética permitida. O Médio-Norte, o maior polo de produção desse grão no Estado, também vai no limite. Nesta safra, a região vai colher 12,3 milhões de toneladas, volume equivalente a 43,6% da produção do cereal mato-grossense. O milho, juntamente com a pioneira soja, faz os municípios crescerem aceleradamente. Engana-se quem pensa encontrar cidades formadas por um centro comercial tímido, cercado por revendas de insumos agrícolas. A agricultura do Médio-Norte faz cidades de comércio pujante, com ruas nas quais as lojas de vestuário, decoração de alto padrão, bares descontraídos e as concessionárias de veículos se compararem ao padrão encontrado em grandes cidades do País, como São Paulo, por exemplo. “É impressionante como a riqueza da agricultura transformou a região”, diz Melo. Não é por acaso que cidades como Sinop, Sorriso e Lucas do Rio Verde estejam enquadradas e uma alta faixa no Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM), calculado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Lucas do Rio Verde, por exemplo, ocupa a 249a posição entre os 5565 municípios brasileiros. Essas cidades vão contribuir para que o País colha, dentro de uma década, 140 milhões de toneladas de milho, ante 92,8 milhões nesta safra.
Para os produtores, a meta será alcançada mais rapidamente, quanto mais eficaz forem os aprendizados de como lidar com esse mercado. Nesta safra, por exemplo, Bernardo Chiarelotto, 72 anos, e seu filho Diogo, 34 anos, da fazenda São Francisco, de 1,7 mil hectares, no município de Cláudia, tiveram uma lição. Os produtores, que também utilizam tecnologias no mais alto grau, se esqueceram de olhar para os preços. Fizeram o mesmo que muitos outros produtores: aguardaram preços melhores, em função do ótimo desenvolvimento das lavouras. Mas eles não vieram. “Não nos preocupamos quando os preços estavam bons, em outubro do ano passado, porque compramos a vista todos os insumos, como sementes e fertilizantes”, diz Diogo. “A oportunidade passou na nossa frente, como um cavalo dado, e a deixamos escapar”, diz Bernardo.

Contando o resultado: equipe de campo mensurando uma das cerca de 300 amostras de dados de produtividade coletados (Crédito:Divulgação)

Com uma estimativa de produtividade de 110 sacas em cada um dos 780 hectares cultivados, que estão rendendo 5,1 mil toneladas, os agricultores fecharam apenas 10% de sua produção por R$ 16, em um contrato fechado em meados de janeiro. O que ocorreu na São Francisco foi um descuido que está custando caro, já que em anos anteriores a venda antecipada da safra sempre foi uma ferramenta utilizada. No ano passado, nessa mesma época, os produtores tinham travadas cerca de 90% da produção. Em Mato Grosso, o tempo não para, assim como o Rally, que segue em frente. “Agora estamos atrás dos leilões de milho do governo para garantir o preço mínimo”, diz Diogo. A expectativa é de uma receita de R$ 1,4 milhão com o cereal e uma melhor gestão na hora de vender na safra que vem.

fonte: Istoé Rural

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