Uma nova figura entre os produtores de mandioca está surgindo. É o maniveiro. Um projeto desenvolvido pela Embrapa investe no trabalho do maniveiro para aumentar a produção de mandioca. “A mandioca é uma cultura que está ligada a agricultura familiar. Isso envolve tradição, conhecimento, materiais”, explica o agrônomo da Embrapa Helton Fleck da Silveira.
A versatilidade da cultura se torna uma aliada ao dia a dia do pequeno agricultor. “As raízes para a produção de farinha, produção de fécula ou amido. A parte área, as folhas para alimentação animal. E a parte das manivas, que são as ramas, para material de plantio”, completa o agrônomo.
A rama que vira maniva, a maniva que vira a mandioca da próxima colheita. Basta cortar com uns 20 centímetros, plantar e esperar. Seria fácil se a cultura não apresentasse baixa produtividade e se muitos agricultores do Nordeste não tivessem ficado sem ter como repor a lavoura devido aos vários anos de seca na região.
No semiárido chove por ano 600, 700 milímetros - o suficiente para o agricultor manter seu roçado de subsistência. Só que nos últimos tempos, a chuva foi tão pouca que muitas culturas não resistiram e a mandioca praticamente desapareceu em alguns lugares.
Foi o que aconteceu no município de Marcionílio Souza, que viu as lavouras minguarem, a ponto de faltar produto em várias casas de farinha. Na casa da Comunidade Pau a Pique, o abastecimento era feito por 250 família. A presidente da associação do Pau a Pique Jandira Lima de Almeida lembra que a casa de farinha tem 23 anos e nunca tinha parado as atividades.
Para evitar esse tipo de situação, a Embrapa criou o Reniva, um programa que se propõe a profissionalizar a cadeia produtiva da mandioca. O projeto vem dando certo e já se espalhou por todos os estados do Nordeste, pelo Tocantins e Minas Gerais. O processo só foi possível porque se criou uma nova figura na cadeia produtiva da mandioca: o maniveiro.
Ser maniveiro se tornou a nova função do agricultor Armando Santos Filho. Ele mora no município de Nova Redenção. Sua propriedade fica a menos de um quilômetro de um dos lugares mais visitados da Chapada Diamantina: o Poço Azul. Os turistas que aproveitam essa beleza talvez nem imaginam que uma importante reestruturação da cadeia produtiva da mandioca esteja em curso. A função do maniveiro é de produzir manivas, fazendo da lavoura uma espécie de poupança de mudas de qualidade.
Os maniveiros são agricultores que já trabalhavam com a cultura da mandioca e aceitaram o desafio de fundar um novo elo na produção. Cada um destinou um hectare da propriedade e ficou responsável pela mão de obra. Em contrapartida, o programa forneceu R$ 15.750 para irrigar, adubar e aplicar defensivos. Nesse caso, o dinheiro foi dado pelo Governo Federal e pelo Estado da Bahia, mas o Reniva está aberto a prefeituras e empresas que queiram investir no projeto.
No total, 40 variedades de mandioca fazem parte do Reniva: 13 do banco de melhoramento genético da Embrapa e as demais sugeridas pelas próprias comunidades de agricultores. Depois que se decidiu quais variedades entrariam para o projeto, uma outra preocupação foi com a sanidade das plantas. Somente mudas livres de pragas e doenças poderiam ser distribuídas para os agricultores. O processo de multiplicação dos melhores materiais começou em um laboratório, que é quase uma maternidade das mandiocas do Reniva.
A multiplicação começa minuciosa, entre bisturis, tubos de ensaio e uma espécie de gel que vai servir de solo. Depois que as mudinhas estão crescidas, elas viajam de Cruz das Almas até o município de Ilhéus, onde fica o Instituto Biofábrica, mantido pelo Governo da Bahia. Nessa etapa, cada plantinha ainda vai se desdobrar em cinco. Nos vidros, elas passam 60 dias em uma sala com luz artificial, depois 45 dias em outra sala com luz natural, daí ganham o substrato para continuar o desenvolvimento na estufa por dez dia. Na fase final, seguem para os viveiros cobertos com uma tela de sombreamento. Todo esse processo na Biofábrica leva algo em torno de seis meses.
A criação do Reniva deu à mandioca um status que ela não tinha antes. Para isso, como dizem os pesquisadores, foram desenvolvidos vários novos protocolos de produção. Um deles tem a ver com a fase final do trabalho, que embala as mudas de um jeito que lembra um rocambole. “Ele facilita a logística. O rocambole ocupa ¼ da área de uma bandeja. O que a gente levava em torno de oito a dez mil por carga, hoje a gente leva até 25 mil”, diz o agrônomo e diretor da Biofábrica Lanns Almeida.
Depois, as mudas vão para os maniveiros, que fazem um plantio adensado, com cerca de 12,5 mil plantas por hectare, o que estimula a produção da parte área da planta ao invés das raízes. O trabalho na roça ainda demora cerca de um ano e meio até a lavoura ficar pronta para o corte e as ramas serem distribuídas de graça para os agricultores da vizinhança.
O produtor brasileiro colhe em média 13 toneladas de mandioca por hectare. O Reniva pretende elevar essa produtividade em 20%. O programa está aberto a novas parcerias, com outros governos estaduais, prefeituras ou empresas privadas.
fonte: Globo Rural
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