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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Cavalo para toda obra

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Tocando a boiada: Igor Alves de Melo, um dos sócios da fazenda Nova Piratininga, diz que o quarto de milha ajuda a melhorar a tropa de serviço 

A fazenda Nova Piratininga, em Nova Crixás, município goiano no vale do rio Araguaia, é uma das maiores do País em terras contínuas. A propriedade de 135 mil hectares, antes improdutiva nas mãos do ex-dono da falida empresa de aviação Vasp, Wagner Canhedo, ao ser comprada por três empresários em 2010, entrou em um processo acelerado de mudança de gestão. Hoje, a Nova Piratininga é referência em eficiência no campo. Ela pertence a João Alves de Queiroz Filho, mais conhecido como Júnior, controlador do grupo Hypermarcas; Marcelo Limírio Gonçalves Filho, ex-dono do laboratório farmacêutico Neo Química, que foi absorvido pelo Hypermarcas; e Igor Nogueira Alves de Melo, um dos herdeiros da farmacêutica Teuto, vendida para a Pfizer. Alves de Melo, um apaixonado por cavalos da raça quarto de milha, não teve dúvida quando foi o escolhido para ser o diretor da fazenda: reservou para ele 500 hectares onde construiu um rancho e montou um núcleo de seleção genética da raça, separados das demais instalações da propriedade. “Quando estou na Nova Piratininga, raramente fico na sede”, diz Alves de Melo. “É no rancho que me sinto em casa.” A decisão do executivo não tem a ver com vaidade ou extravagância. O objetivo do núcleo de criação de animais é melhorar a tropa de lida do gado da fazenda e no futuro vender cavalos quarto de milha na região.

No rancho, estão 60 éguas puras e 40 cruzadas de quarto de milha em processo de melhoramento genético. A linhagem escolhida não poderia ser outra: o criador utiliza a de apartação, com animais mais adaptados aos serviços de uma fazenda. Muitos são descendentes de cavalos de destaque na história do quarto de milha, entre eles o americano Doc Bar, o mais famoso. Fábio Pinto da Costa, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM), diz que Doc Bar se transformou em modelo de apartação. “Nas linhagens de trabalho, os criadores buscam por animais funcionais”, diz Costa. “Doc Bar tinha qualidades até hoje almejadas”, afirma Costa. Nascido na década de 1950, Doc Bar gerou 485 filhos. 

"Nas linhagens de trabalho, os criadores buscam por animais funcionais” Fábio Pinto da Costa, presidente da Associação dos Criadores de Quarto de Milha

Para manejar o rebanho de cerca de 100 mil bovinos nelore criados em pastos, a Nova Piratininga mantém 900 animais, entre equinos sem raça definida, mulas, burros e muares, dos quais 500 estão diretamente na lida. O manejo não é simples. Para manter a tropa ativa, 20% dos animais precisam ser trocados todos os anos, ou seja, a fazenda necessita de 100 animais prontos para trabalhar. Para que a roda não trave, é necessário manter outros 100 animais na doma, mais 100 animais na recria e 100 potros na desmama. Com a criação do rancho, Alves de Melo passou a ser o fornecedor de garanhões para cruzar com parte das éguas comuns. Outra parte delas, as mais puxadas para o quarto de milha, são cruzadas com jumentos pêga para que nasçam burros e mulas. “Quero que toda a tropa de mulas e burros tenha a aptidão do quarto de milha”, afirma Alves de Melo.

Cada peão da fazenda possui cinco animais sob a sua guarda. De acordo com o gerente de pecuária Selho José Ramos de Souza, contratado como peão há 16 anos ainda na gestão de Canhedo, a melhoria da tropa reflete diretamente no resultado do trabalho de campo. “Um cavalo mais adequado a uma determinada tarefa traz eficiência no nosso dia a dia”, afirma Souza. “O peão pede e o cavalo responde com rapidez, sem risco de algum dos dois se machucar.” 

De acordo com Alves de Melo, o quarto de milha vai fazer parte definitivamente dos negócios da fazenda por serem ágeis e funcionais nas tarefas de apartação e de rodeio da boiada. “Estamos mudando a configuração da tropa porque mudou a configuração do manejo do gado”, diz ele. Burros e mulas, animais mais resistentes para as longas distâncias, chegavam a percorrer 20 quilômetros por dia na época em que imensos pastos superavam três mil hectares cada um. Assim, qualquer atividade de manejo, como cuidar de recém nascidos, juntar a boiada para vacinas ou medicação, era uma tarefa árdua e cansativa. Mas a tendência é que os animais não mais percorram longas distâncias, por causa da divisão de pastos em piquetes cada vez menores e da instalação de 12 retiros para os vaqueiros. “É aí que o quarto de milha faz toda a diferença”, diz Alves de Melo. “Ele é ideal para tarefas em distâncias mais curtas, porque é forte e muito inteligente.”

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